quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

I see Fire

Ele

   Depois de tantas horas de shows, finalmente pude tirar uma semana de férias. Eu e minha equipe estávamos na Califórnia, São Francisco, cansados demais para badalar... e não teria como voltar para rever a minha família na Inglaterra, mesmo sem fazer show por uma semana, ainda havia alguns compromissos para finalizar a minha turnê.
     Era Julho, uma sexta-feira e eu estava sentado junto à piscina do hotel, lia um livro desses de ficção e fantasia e sentia o frescor do vento batendo contra o meu rosto. A noite estava calma, um tanto quieta demais.
     Alguns intercambistas estavam ali conversando em alto e bom som, mas pareciam não ter percebido a minha presença. E eu comemorava o fato de não terem me reconhecido. Um pouco de anonimato me faria bem durante aquela semana.
     Pouco depois todos se retiraram. Aparentemente estavam cansados da viagem e foram dormir. O vento que vinha do oeste ficava cada vez mais frio. Até eu que cresci em meio ao clima frio da Grâ Bretanha estava tremendo da cabeça aos pés. Minha sorte foi que, por já conhecer o clima local,eu saíra do quarto trazendo uma manta quente e aconchegante, o que me garantiu maior conforto para continuar a minha leitura.
     Uns 15 minutos passaram e percebi que não estava sozinho. Em um sofá macio e de tamanho médio estava deitada uma garota. Ela parecia dormir profundamente e não se importar com o frio. Minha curiosidade me fez aproximar de onde ela estava para observá-la enquanto dormia. Aparentemente ela era uma das intercambistas, pegara no sono ali mesmo, e os seus companheiros simplesmente foram embora.
     Aproximei minha mão sobre sua testa e percebi que estava quase congelando. Se ficasse ali mais alguns minutos, ela poderia pegar um resfriado. Pequei então a minha manta e a coloquei suavemente sobre seus ombros.

Ela

     Acordei completamente assustada. O que estava acontecendo? Parei e respirei profundamente, era apenas um garoto me cobrindo com uma manta. Ele arregalou os olhos, imensamente azuis e gaguejou uma desculpa sem jeito, com um sotaque um pouco estranho. 

- I'm sorry - disse piscando os olhos e afastando-se para a cadeira ao lado.
- No problem. - eu respondi, tentando formular as palavras em inglês. Estava em uma viagem com uns colegas da minha faculdade no Brasil. A faculdade nos proporcionou uma viagem para os Estados Unidos e estávamos aproveitando ao máximo. Meus amigos haviam se retirado, mas eu quisera ficar ali, sentindo um pouco do frio americano.

     Ele sorriu e pareceu mais calmo.

- Você estava congelando. - disse em um sotaque britânico que me fez segurar uma risada. O sotaque dos ingleses é tão engraçado!!

- Obrigada por se importar. - falei lhe devolvendo a manta. - Acho que vou para o meu quarto, está frio e você precisa do seu cobertor.

- Sem problemas, eu estava apenas lendo um pouco e você me pareceu que iria ficar a noite inteira aí, então, achei melhor evitar que você ficasse doente.

     Nos encaramos por um momento. Ele tinha os olhos mais ternos e calmos que eu já vi. seus lábios eram finos como os dos ingleses famosos, tipo Hugh Dancy, e seus cabelos eram cor de fogo, como se ele fosse a inspiração da JK Rowling para criar os Weasley. Era meio gordinho como um gato preguiçoso e tinha mãos grandes e fortes.

- Joana - estendi-lhe a mão direita.
- Edward - disse ainda me olhando de forma carinhosa.
- Então, Edward, você não é daqui, é? - perguntei ainda disfarçando a risada do sotaque.
- Sou da Inglaterra, estou trabalhando um pouco por aqui. E você, de onde é?
- Brasil. Estou com a turma da faculdade. Ganhamos um apoio para conhecer umas empresas locais.
- E o que você estuda no Brasil?
- Relações Internacionais.
- Parece interessante, por isso você está neste intercâmbio?
- Sim, alguns alunos conseguem ganhar uma viagem pela faculdade, mas é só por duas semanas.
- E quando vocês chegaram?
-Ontem. Por isso ainda não me acostumei com o horário daqui.

     Então a minha barriga me fez o favor de roncar altíssimo. O que me deixou vermelha de vergonha.

- Acho que você está com fome.
- É, ainda não me acostumei com a comida americana, também.
- Sei bem como é, não existe fish and chips ou chá igual ao do meu país. Mas eu conheço um ótimo restaurante mexicano que fica aqui perto, se você quiser me acompanhar, posso te apresentar uma comida bem picante.
-Adoro pimenta! - respondi já excitada com a ideia de sair para conhecer a noite de São Francisco com alguém que fala inglês, mas que é tão turista quanto eu. - Preciso buscar um casaco e a gente se encontra em poucos minutos, ok?

     Ele assentiu e eu saí desembestada em direção ao meu quarto.

- Pensávamos que você iria dormir lá fora. - disse a minha colega de quarto Julia, havia mais três meninas em nosso dormitório apenas se reunindo para falar bobagem.
- É que eu conheci um inglês que me chamou para conhecer um pouco sobre a Califórnia.
- Cuidado Joana, você não conhece esse cara, qualquer coisa, liga pra gente. 

Dei um forte abraço nas meninas e desci para a entrada do hotel o mais rápido possível.

     Lá estava ele. No mesmo local onde eu o havia deixado. Havia colocado o capuz de seu casaco na cabeça e batucava com as mãos em suas coxas, como se estivesse tocando bateria, o pé direito batendo forte no chão como se chutasse o bumbo da bateria e o outro pé no ritmo do chimbal. Assim que me viu, Edward levantou-se e sorriu, me acompanhando para fora do Hall.

     Logo estávamos entrando em um restaurante mexicano. Ríamos muito alto enquanto ele me contava coisas engraçadas sobre o seu gato. Adoro gatos, e descobrir que ele gosta também, me animou e nos proporcionou vários minutos de uma boa conversa. Ele era realmente diferente. Descobri que ele mesmo cortava o seu cabelo e que tinha escrito algumas músicas para uma antiga namorada. Sim, ele era músico, tocava violão e, pelo que pude observar, era um bom compositor também. Recitou algumas de suas músicas e eu fiquei encantada com uma chamada "The Parting Glass".

- Eu também toco. Tenho uma banda e costumo compor às vezes. - eu disse tentando parecer natural, para ele não pensar que eu estava querendo demonstrar que sou foda e tals. Tipo, eu toco um pouquinho de teclado e minha banda nem é tão conhecida assim, mas já que tínhamos um ponto em comum, seria interessante prolongar a conversa.
-Que bom! - disse ele parecendo surpreso. - Talvez a gente possa compor alguma coisa juntos depois. - disse isso levantando uma taça de vinho e brindando comigo.

     Saímos completamente bêbados. O que aumentou significativamente as nossas risadas. Fumamos uns cigarros e voltamos para o hotel, com cuidado para não fazer barulho.

     Foi uma noite bastante agradável. Pensei enquanto me deitava. Edward conseguira tirar o meu sono e, em um piscar de olhos, o dia amanheceu.

Ele

     Cheguei ao meu quarto bastante alterado pelo álcool. Eu estava à flor da pele. Me impressionava o fato de que Joana não me reconhecera. Talvez, se ela tivesse se tocado, teríamos feito sexo a madrugada inteira, como geralmente acontece com algumas de minhas fans. Mas ela era diferente. Podia ver que tinha em seus olhos uma pureza sem igual. Não parecia se importar com a fama ou dinheiro, quis até dividir a conta do jantar. Ela me excitava, mas era uma excitação de euforia e calma ao mesmo tempo. Não apenas sexual, mas ela era inteligente, muito bonita, gostava de gatos.
     Fiquei imaginando se nos encontraríamos no dia seguinte. Logo adormeci.
     Amanheceu e, mesmo de férias, tive umas entrevistas para dar à uma TV local. Não sei se foi o efeito do álcool, mas não me recordava exatamente com quem ou onde eu havia estado na noite anterior. Tinha uma lembrança vaga do sorriso da garota que estava comigo junto à piscina e que saímos para beber e comer alguma coisa, mas acreditei que nunca mais nos encontraríamos.
     No café da manhã havia pouca gente no hotel. Por certo os intercambistas haviam saído e a garota da noite passada também. Como é mesmo o nome dela...?
     No decorrer do dia fui recordando da noite passada. Nossas risadas, conversas e o motivo de não termos transado ao voltar para o hotel: ela era diferente e eu não sabia por que, mas não queria que fosse só por uma noite, queria a sua amizade.

Ela

     O dia foi maravilhoso, conhecemos umas empresas, a Golden Gate e fizemos umas compras. E eu só conseguia pensar se Edward ainda estaria no Hotel. Afinal, não lhe perguntei quando ele voltaria para a Inglaterra. Bem, não conseguia tirar ele da cabeça, seria ótimo conversar com ele novamente. Quando estávamos bêbados, foi simplesmente a coisa mais divertida que eu vivi nos EUA desde que chegamos.
     Voltamos tarde para o hotel e eu já não tinha esperanças de encontrá-lo. Todos foram para o quarto, mas me encaminhei para a área da piscina do hotel esperando encontrar alguém que pudesse controlar a minha ansiedade. Esperava que Edward estivesse ali.
     Ainda por trás de um arbusto, encaminhando-me para a cadeira onde eu dormira na noite anterior, ouvi um suave som de violão e uma voz sussurrada. Esperei que ele acabasse a canção e, enquanto ele acendia um cigarro, me aproximei.

- Quando você canta, sua voz me parece familiar. - eu disse enquanto ele jogava a cabeça para trás em um susto.
- Tenho uma voz comum. - disse me oferecendo um cigarro, meio envergonhado.
- Sua voz é doce. - observei. Aquela voz, realmente me era familiar.
- Canta comigo? - disse ele dando um sorriso sapeca.
Agi como se seu sorriso não houvesse me afetado, mas a verdade é que eu estremecera por dentro.

     Cantamos algumas canções antigas dos Beatles e de bandas como o Elbow. Combinamos que iríamos escrever uma canção juntos algum dia.

-Vou te levar em um lugar onde poderemos compor nossa canção agora. - disse-me e puxou a minha mão que gelou ao tocar na dele. Ele podia ser um psicopata, mas eu não me importava, só queria ver o seu mundo.

Ele

     Ela concordou em vir comigo. Não estávamos muito longe do local. Peguei um carro com o meu segurança noturno e pedi que ele não nos seguisse.
      Foi maravilhoso ver o sorriso largo em seu rosto quando colocamos os pés na água gelada do Pacífico. Joana brilhava sob as estrelas que pareciam ser as únicas a nos assistir. Eu a observava rodopiar na areia enquanto cantarolávamos o que seria a nossa canção. Sem violão, sem teclados, apenas nossas vozes e o vento.
     Finalizamos e a chamamos de "A song for the Ocean". Ela tinha a maneira perfeita de completar as minhas frases, como se já soubesse o que vou dizer.
     Já era madrugada quando retornamos para o Hotel. A levei até o quarto e nos despedimos com um abraço apertado e sincero. Definitivamente eu não iria querer fazer sexo com ela, era muito preciosa para mim. Sua amizade seria um tesouro.

Ela

     O dia seguinte foi bem comum. Passeamos, conhecemos mais sobre a cultura do país e eu só ansiava pela noite, onde poderia encontrar um certo ruivo gordinho que me levara até a praia. Dessa vez nós combinamos de nos encontrar na porta do hotel ao final da tarde para andar por aí. Afinal, ele era tão turista quanto eu.
     Ao entardecer fomos conhecer alguns lugares de São Francisco, lojas exóticas e de instrumentos. Tomamos sorvete e cantamos nossa música algumas vezes.

- Seu namorado não se importou em você viajar sozinha? - ele me perguntou querendo saber se eu tinha namorado.
- Ele se importou sim, mas não teve muito o que fazer. - senti um olhar de decepção em seu rosto. - Não podia impedir minha viagem.
- Se ele pudesse faria isso?
- Talvez. Ele não é exatamente do tipo compreensivo, se é que você me entende.
- Você parece triste falando dele.
- É que aconteceram certas coisas que não foram legais, mas isso já faz muito tempo.
- Há quanto tempo estão juntos?
- 5 anos.
- Uau - ele pareceu surpreso. - É muito tempo mesmo. Não vai casar com ele?
- Não, isso não está nos meus planos. Não depois de... - parei bruscamente e tentei mudar de assunto.
Edward percebeu que era melhor deixarmos aquela conversa de lado. Falamos de outras coisas, mas eu pude perceber uma mistura de decepção e pena em seus olhos.

     Os dias foram passando e estávamos cada vez mais amigos. Ele me contava sobre a Inglaterra e as maravilhas em Londres e eu contava sobre as praias do Brasil e as belas mulheres. Sempre tínhamos algo para fazer ou discutir, sempre sorríamos muito e nos abraçávamos na rua, como velhos amigos. Se existe essa coisa de outra vida, certamente já fomos amigos antes.

Ele

     Como ela não percebia que eu estava caidinho por ela. A cada dia eu me encantava mais, seu perfume sua doce voz, seus olhos negros e pequenos. Não podia acreditar que ela tivesse um babaca de um namorado controlador e mentiroso. Sim, o olhar que ela trazia quando falava sobre ele dizia claramente que ele mentira. Eu não gostava de saber que ela tivesse que passar por isso. Ela merecia algo muito melhor.
     Saímos para beber e dançar um pouco. Ela era muito divertida quando estava bêbada, era verdadeira e ousada, o que combinava perfeitamente comigo porque eu também ficava louco quando bebia.
     Já eram quase meia noite quando o salto do sapato dela arrebentou no meio da boate. Tivemos que voltar para casa, mas não havia taxi e meus seguranças tinham voltado pro hotel à meu pedido. Estávamos muito loucos e eu não pude me conter. Paramos em um banco de um parque para que ela pudesse tirar o outro sapato. Olhei dentro de seus olhos e vi um fogo contido me chamando para conter as chamas que se alastravam cada vez mais pelo seu rosto. Um rubor profundo se aproximou de sua pele bronzeada ao perceber o que iria acontecer.
     Suavemente passei a mão em seu cabelo macio e encaracolado e escondi uma mecha atrás de sua orelha. Seus cabelos curtos esvoaçavam com o vento gelado de São Francisco. Aproximei meu corpo ainda mais do seu, enquanto ela respirava aceleradamente. Pude sentir o seu coração pulando alto e forte. Encostei os meus lábios no seu enquanto eu sentia todo o meu corpo levando um choque, um beijo terno e intenso que eu havia esperado tanto tempo para receber. Fechei os meus olhos e abracei a sua cintura desejando que aquele beijo durasse a vida inteira. Perdi os sentidos, nos beijamos algumas vezes e eu sentia o seu corpo em minhas mãos, como era frágil e sexy.
     Nos afastamos e por um segundo achei que iria ficar tudo bem, mas ela levantou-se e parecia estar arrependida.

-Não posso Edward! Tenho um namorado no Brasil.
Passei a mão pelos cabelos indignado. Ela não percebia quem ele era?
- Um namorado que mentiu para você. Que traiu você com uma garota sem importância.
- Como você sabe?
- Está em seus olhos quando fala dele. Você não merece isso. É uma pessoa maravilhosa e, acho que eu estou gostando mesmo de você. Mais do que já gostei de alguém. É estranho, eu sei. Nos conhecemos há poucos dias, mas eu nunca conheci alguém que me fizesse ficar assim.
-Assim como?
- Todos os dias eu espero ansioso a noite chegar para estar com você. Compus uma canção sobre a gente ontem, fico acordado quando voltamos de algum lugar pensando no que eu poderia ter feito para te dizer o que eu sinto. E quando vou dormir me culpo por não ter te dado um beijo. Mesmo que você não sinta o mesmo por mim, eu não poderia deixar você voltar para o Brasil sem te dizer a verdade. Eu estou mesmo gostando de você, talvez seja uma paixão, um amor.... não sei. - eu estava bem confuso.
-Edward, é claro que eu sinto o mesmo. Também espero a noite chegar para estar com você, fico acordada pensando no seu sorriso, desejo o tempo todo que você me beije, mesmo sabendo que é errado
-Não é errado beijar quem a gente ama de verdade. - eu disse um tanto desapontado- O que você sente pelo seu namorado afinal?
Joana parou por um instante para pensar. Gaguejou e balbuciou alguma coisa que eu não entendi. Talvez ela gostasse mesmo dele.
-Taxi. - chamei. Entramos em silêncio e fomos para o nosso quarto. Eu cambaleando ainda por causa da bebida.


Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário