quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

I see Fire

Ele

   Depois de tantas horas de shows, finalmente pude tirar uma semana de férias. Eu e minha equipe estávamos na Califórnia, São Francisco, cansados demais para badalar... e não teria como voltar para rever a minha família na Inglaterra, mesmo sem fazer show por uma semana, ainda havia alguns compromissos para finalizar a minha turnê.
     Era Julho, uma sexta-feira e eu estava sentado junto à piscina do hotel, lia um livro desses de ficção e fantasia e sentia o frescor do vento batendo contra o meu rosto. A noite estava calma, um tanto quieta demais.
     Alguns intercambistas estavam ali conversando em alto e bom som, mas pareciam não ter percebido a minha presença. E eu comemorava o fato de não terem me reconhecido. Um pouco de anonimato me faria bem durante aquela semana.
     Pouco depois todos se retiraram. Aparentemente estavam cansados da viagem e foram dormir. O vento que vinha do oeste ficava cada vez mais frio. Até eu que cresci em meio ao clima frio da Grâ Bretanha estava tremendo da cabeça aos pés. Minha sorte foi que, por já conhecer o clima local,eu saíra do quarto trazendo uma manta quente e aconchegante, o que me garantiu maior conforto para continuar a minha leitura.
     Uns 15 minutos passaram e percebi que não estava sozinho. Em um sofá macio e de tamanho médio estava deitada uma garota. Ela parecia dormir profundamente e não se importar com o frio. Minha curiosidade me fez aproximar de onde ela estava para observá-la enquanto dormia. Aparentemente ela era uma das intercambistas, pegara no sono ali mesmo, e os seus companheiros simplesmente foram embora.
     Aproximei minha mão sobre sua testa e percebi que estava quase congelando. Se ficasse ali mais alguns minutos, ela poderia pegar um resfriado. Pequei então a minha manta e a coloquei suavemente sobre seus ombros.

Ela

     Acordei completamente assustada. O que estava acontecendo? Parei e respirei profundamente, era apenas um garoto me cobrindo com uma manta. Ele arregalou os olhos, imensamente azuis e gaguejou uma desculpa sem jeito, com um sotaque um pouco estranho. 

- I'm sorry - disse piscando os olhos e afastando-se para a cadeira ao lado.
- No problem. - eu respondi, tentando formular as palavras em inglês. Estava em uma viagem com uns colegas da minha faculdade no Brasil. A faculdade nos proporcionou uma viagem para os Estados Unidos e estávamos aproveitando ao máximo. Meus amigos haviam se retirado, mas eu quisera ficar ali, sentindo um pouco do frio americano.

     Ele sorriu e pareceu mais calmo.

- Você estava congelando. - disse em um sotaque britânico que me fez segurar uma risada. O sotaque dos ingleses é tão engraçado!!

- Obrigada por se importar. - falei lhe devolvendo a manta. - Acho que vou para o meu quarto, está frio e você precisa do seu cobertor.

- Sem problemas, eu estava apenas lendo um pouco e você me pareceu que iria ficar a noite inteira aí, então, achei melhor evitar que você ficasse doente.

     Nos encaramos por um momento. Ele tinha os olhos mais ternos e calmos que eu já vi. seus lábios eram finos como os dos ingleses famosos, tipo Hugh Dancy, e seus cabelos eram cor de fogo, como se ele fosse a inspiração da JK Rowling para criar os Weasley. Era meio gordinho como um gato preguiçoso e tinha mãos grandes e fortes.

- Joana - estendi-lhe a mão direita.
- Edward - disse ainda me olhando de forma carinhosa.
- Então, Edward, você não é daqui, é? - perguntei ainda disfarçando a risada do sotaque.
- Sou da Inglaterra, estou trabalhando um pouco por aqui. E você, de onde é?
- Brasil. Estou com a turma da faculdade. Ganhamos um apoio para conhecer umas empresas locais.
- E o que você estuda no Brasil?
- Relações Internacionais.
- Parece interessante, por isso você está neste intercâmbio?
- Sim, alguns alunos conseguem ganhar uma viagem pela faculdade, mas é só por duas semanas.
- E quando vocês chegaram?
-Ontem. Por isso ainda não me acostumei com o horário daqui.

     Então a minha barriga me fez o favor de roncar altíssimo. O que me deixou vermelha de vergonha.

- Acho que você está com fome.
- É, ainda não me acostumei com a comida americana, também.
- Sei bem como é, não existe fish and chips ou chá igual ao do meu país. Mas eu conheço um ótimo restaurante mexicano que fica aqui perto, se você quiser me acompanhar, posso te apresentar uma comida bem picante.
-Adoro pimenta! - respondi já excitada com a ideia de sair para conhecer a noite de São Francisco com alguém que fala inglês, mas que é tão turista quanto eu. - Preciso buscar um casaco e a gente se encontra em poucos minutos, ok?

     Ele assentiu e eu saí desembestada em direção ao meu quarto.

- Pensávamos que você iria dormir lá fora. - disse a minha colega de quarto Julia, havia mais três meninas em nosso dormitório apenas se reunindo para falar bobagem.
- É que eu conheci um inglês que me chamou para conhecer um pouco sobre a Califórnia.
- Cuidado Joana, você não conhece esse cara, qualquer coisa, liga pra gente. 

Dei um forte abraço nas meninas e desci para a entrada do hotel o mais rápido possível.

     Lá estava ele. No mesmo local onde eu o havia deixado. Havia colocado o capuz de seu casaco na cabeça e batucava com as mãos em suas coxas, como se estivesse tocando bateria, o pé direito batendo forte no chão como se chutasse o bumbo da bateria e o outro pé no ritmo do chimbal. Assim que me viu, Edward levantou-se e sorriu, me acompanhando para fora do Hall.

     Logo estávamos entrando em um restaurante mexicano. Ríamos muito alto enquanto ele me contava coisas engraçadas sobre o seu gato. Adoro gatos, e descobrir que ele gosta também, me animou e nos proporcionou vários minutos de uma boa conversa. Ele era realmente diferente. Descobri que ele mesmo cortava o seu cabelo e que tinha escrito algumas músicas para uma antiga namorada. Sim, ele era músico, tocava violão e, pelo que pude observar, era um bom compositor também. Recitou algumas de suas músicas e eu fiquei encantada com uma chamada "The Parting Glass".

- Eu também toco. Tenho uma banda e costumo compor às vezes. - eu disse tentando parecer natural, para ele não pensar que eu estava querendo demonstrar que sou foda e tals. Tipo, eu toco um pouquinho de teclado e minha banda nem é tão conhecida assim, mas já que tínhamos um ponto em comum, seria interessante prolongar a conversa.
-Que bom! - disse ele parecendo surpreso. - Talvez a gente possa compor alguma coisa juntos depois. - disse isso levantando uma taça de vinho e brindando comigo.

     Saímos completamente bêbados. O que aumentou significativamente as nossas risadas. Fumamos uns cigarros e voltamos para o hotel, com cuidado para não fazer barulho.

     Foi uma noite bastante agradável. Pensei enquanto me deitava. Edward conseguira tirar o meu sono e, em um piscar de olhos, o dia amanheceu.

Ele

     Cheguei ao meu quarto bastante alterado pelo álcool. Eu estava à flor da pele. Me impressionava o fato de que Joana não me reconhecera. Talvez, se ela tivesse se tocado, teríamos feito sexo a madrugada inteira, como geralmente acontece com algumas de minhas fans. Mas ela era diferente. Podia ver que tinha em seus olhos uma pureza sem igual. Não parecia se importar com a fama ou dinheiro, quis até dividir a conta do jantar. Ela me excitava, mas era uma excitação de euforia e calma ao mesmo tempo. Não apenas sexual, mas ela era inteligente, muito bonita, gostava de gatos.
     Fiquei imaginando se nos encontraríamos no dia seguinte. Logo adormeci.
     Amanheceu e, mesmo de férias, tive umas entrevistas para dar à uma TV local. Não sei se foi o efeito do álcool, mas não me recordava exatamente com quem ou onde eu havia estado na noite anterior. Tinha uma lembrança vaga do sorriso da garota que estava comigo junto à piscina e que saímos para beber e comer alguma coisa, mas acreditei que nunca mais nos encontraríamos.
     No café da manhã havia pouca gente no hotel. Por certo os intercambistas haviam saído e a garota da noite passada também. Como é mesmo o nome dela...?
     No decorrer do dia fui recordando da noite passada. Nossas risadas, conversas e o motivo de não termos transado ao voltar para o hotel: ela era diferente e eu não sabia por que, mas não queria que fosse só por uma noite, queria a sua amizade.

Ela

     O dia foi maravilhoso, conhecemos umas empresas, a Golden Gate e fizemos umas compras. E eu só conseguia pensar se Edward ainda estaria no Hotel. Afinal, não lhe perguntei quando ele voltaria para a Inglaterra. Bem, não conseguia tirar ele da cabeça, seria ótimo conversar com ele novamente. Quando estávamos bêbados, foi simplesmente a coisa mais divertida que eu vivi nos EUA desde que chegamos.
     Voltamos tarde para o hotel e eu já não tinha esperanças de encontrá-lo. Todos foram para o quarto, mas me encaminhei para a área da piscina do hotel esperando encontrar alguém que pudesse controlar a minha ansiedade. Esperava que Edward estivesse ali.
     Ainda por trás de um arbusto, encaminhando-me para a cadeira onde eu dormira na noite anterior, ouvi um suave som de violão e uma voz sussurrada. Esperei que ele acabasse a canção e, enquanto ele acendia um cigarro, me aproximei.

- Quando você canta, sua voz me parece familiar. - eu disse enquanto ele jogava a cabeça para trás em um susto.
- Tenho uma voz comum. - disse me oferecendo um cigarro, meio envergonhado.
- Sua voz é doce. - observei. Aquela voz, realmente me era familiar.
- Canta comigo? - disse ele dando um sorriso sapeca.
Agi como se seu sorriso não houvesse me afetado, mas a verdade é que eu estremecera por dentro.

     Cantamos algumas canções antigas dos Beatles e de bandas como o Elbow. Combinamos que iríamos escrever uma canção juntos algum dia.

-Vou te levar em um lugar onde poderemos compor nossa canção agora. - disse-me e puxou a minha mão que gelou ao tocar na dele. Ele podia ser um psicopata, mas eu não me importava, só queria ver o seu mundo.

Ele

     Ela concordou em vir comigo. Não estávamos muito longe do local. Peguei um carro com o meu segurança noturno e pedi que ele não nos seguisse.
      Foi maravilhoso ver o sorriso largo em seu rosto quando colocamos os pés na água gelada do Pacífico. Joana brilhava sob as estrelas que pareciam ser as únicas a nos assistir. Eu a observava rodopiar na areia enquanto cantarolávamos o que seria a nossa canção. Sem violão, sem teclados, apenas nossas vozes e o vento.
     Finalizamos e a chamamos de "A song for the Ocean". Ela tinha a maneira perfeita de completar as minhas frases, como se já soubesse o que vou dizer.
     Já era madrugada quando retornamos para o Hotel. A levei até o quarto e nos despedimos com um abraço apertado e sincero. Definitivamente eu não iria querer fazer sexo com ela, era muito preciosa para mim. Sua amizade seria um tesouro.

Ela

     O dia seguinte foi bem comum. Passeamos, conhecemos mais sobre a cultura do país e eu só ansiava pela noite, onde poderia encontrar um certo ruivo gordinho que me levara até a praia. Dessa vez nós combinamos de nos encontrar na porta do hotel ao final da tarde para andar por aí. Afinal, ele era tão turista quanto eu.
     Ao entardecer fomos conhecer alguns lugares de São Francisco, lojas exóticas e de instrumentos. Tomamos sorvete e cantamos nossa música algumas vezes.

- Seu namorado não se importou em você viajar sozinha? - ele me perguntou querendo saber se eu tinha namorado.
- Ele se importou sim, mas não teve muito o que fazer. - senti um olhar de decepção em seu rosto. - Não podia impedir minha viagem.
- Se ele pudesse faria isso?
- Talvez. Ele não é exatamente do tipo compreensivo, se é que você me entende.
- Você parece triste falando dele.
- É que aconteceram certas coisas que não foram legais, mas isso já faz muito tempo.
- Há quanto tempo estão juntos?
- 5 anos.
- Uau - ele pareceu surpreso. - É muito tempo mesmo. Não vai casar com ele?
- Não, isso não está nos meus planos. Não depois de... - parei bruscamente e tentei mudar de assunto.
Edward percebeu que era melhor deixarmos aquela conversa de lado. Falamos de outras coisas, mas eu pude perceber uma mistura de decepção e pena em seus olhos.

     Os dias foram passando e estávamos cada vez mais amigos. Ele me contava sobre a Inglaterra e as maravilhas em Londres e eu contava sobre as praias do Brasil e as belas mulheres. Sempre tínhamos algo para fazer ou discutir, sempre sorríamos muito e nos abraçávamos na rua, como velhos amigos. Se existe essa coisa de outra vida, certamente já fomos amigos antes.

Ele

     Como ela não percebia que eu estava caidinho por ela. A cada dia eu me encantava mais, seu perfume sua doce voz, seus olhos negros e pequenos. Não podia acreditar que ela tivesse um babaca de um namorado controlador e mentiroso. Sim, o olhar que ela trazia quando falava sobre ele dizia claramente que ele mentira. Eu não gostava de saber que ela tivesse que passar por isso. Ela merecia algo muito melhor.
     Saímos para beber e dançar um pouco. Ela era muito divertida quando estava bêbada, era verdadeira e ousada, o que combinava perfeitamente comigo porque eu também ficava louco quando bebia.
     Já eram quase meia noite quando o salto do sapato dela arrebentou no meio da boate. Tivemos que voltar para casa, mas não havia taxi e meus seguranças tinham voltado pro hotel à meu pedido. Estávamos muito loucos e eu não pude me conter. Paramos em um banco de um parque para que ela pudesse tirar o outro sapato. Olhei dentro de seus olhos e vi um fogo contido me chamando para conter as chamas que se alastravam cada vez mais pelo seu rosto. Um rubor profundo se aproximou de sua pele bronzeada ao perceber o que iria acontecer.
     Suavemente passei a mão em seu cabelo macio e encaracolado e escondi uma mecha atrás de sua orelha. Seus cabelos curtos esvoaçavam com o vento gelado de São Francisco. Aproximei meu corpo ainda mais do seu, enquanto ela respirava aceleradamente. Pude sentir o seu coração pulando alto e forte. Encostei os meus lábios no seu enquanto eu sentia todo o meu corpo levando um choque, um beijo terno e intenso que eu havia esperado tanto tempo para receber. Fechei os meus olhos e abracei a sua cintura desejando que aquele beijo durasse a vida inteira. Perdi os sentidos, nos beijamos algumas vezes e eu sentia o seu corpo em minhas mãos, como era frágil e sexy.
     Nos afastamos e por um segundo achei que iria ficar tudo bem, mas ela levantou-se e parecia estar arrependida.

-Não posso Edward! Tenho um namorado no Brasil.
Passei a mão pelos cabelos indignado. Ela não percebia quem ele era?
- Um namorado que mentiu para você. Que traiu você com uma garota sem importância.
- Como você sabe?
- Está em seus olhos quando fala dele. Você não merece isso. É uma pessoa maravilhosa e, acho que eu estou gostando mesmo de você. Mais do que já gostei de alguém. É estranho, eu sei. Nos conhecemos há poucos dias, mas eu nunca conheci alguém que me fizesse ficar assim.
-Assim como?
- Todos os dias eu espero ansioso a noite chegar para estar com você. Compus uma canção sobre a gente ontem, fico acordado quando voltamos de algum lugar pensando no que eu poderia ter feito para te dizer o que eu sinto. E quando vou dormir me culpo por não ter te dado um beijo. Mesmo que você não sinta o mesmo por mim, eu não poderia deixar você voltar para o Brasil sem te dizer a verdade. Eu estou mesmo gostando de você, talvez seja uma paixão, um amor.... não sei. - eu estava bem confuso.
-Edward, é claro que eu sinto o mesmo. Também espero a noite chegar para estar com você, fico acordada pensando no seu sorriso, desejo o tempo todo que você me beije, mesmo sabendo que é errado
-Não é errado beijar quem a gente ama de verdade. - eu disse um tanto desapontado- O que você sente pelo seu namorado afinal?
Joana parou por um instante para pensar. Gaguejou e balbuciou alguma coisa que eu não entendi. Talvez ela gostasse mesmo dele.
-Taxi. - chamei. Entramos em silêncio e fomos para o nosso quarto. Eu cambaleando ainda por causa da bebida.


Continua...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Unmistakable - Inconfundível

"- I don't think I want this anymore -
As she drops her ring to the floor"

Ela:

     É bem assim que começa a minha história. Uma briga feia. Seis anos de relacionamento jogados para o alto. Nem sempre fora assim, já tivemos bons tempos, mas depois de aguentar as mentiras e manipulações dele, eu decidi cair fora.
     É sempre uma decisão difícil acabar assim. Depois de tanta coisa construída, tantos momentos de dedicação para que tudo desse certo. Eu deveria ter pensado mais em mim, desde o começo. Mas vivi para um cara que não se importava com meus reais sentimentos. E o que era amor transformou-se em uma prisão para mim. Eu já não suportava mais estar perto dele, como se ele me sufocasse. Gostaria de não ter começado isso.. tooo late.
     Mas fui boba em não sair antes. Tive a chance e fiquei presa neste relacionamento de mentiras e competição. Sim, porque o fato de eu ser uma arquiteta bem sucedida o incomodava. Ele, que ainda nem havia terminado a faculdade de jornalismo, cada vez mais frio e estranho.
     Então cansei. "Acho que não aguento mais isso", disse para mim mesma enquanto jogava meu anel de noivado no chão. Peguei a mala, a coloquei em cima da cama e rapidamente pus as minhas coisas dentro. Entrei no carro e comecei a dirigir. Sem destino, apenas queria fugir de tudo aquilo e recomeçar novamente.

"I deserve better, after all
I'll never let another tear drop fall"

     Saí da cidade correndo. Em uma velocidade tão grande que, se a polícia me visse, certamente me pararia. Lágrimas e sorrisos se confundiam na minha face que estava triste a aliviada por ter finalizado aquilo. Mas iria ser difícil. Um recomeço, depois de seis anos de noivado, sozinha outra vez. Eu nem me lembrava mais como era estar sozinha. Mas a sensação de liberdade era reconfortante. Poder fugir sem ter que dizer onde estou indo, sem precisar ficar gostosona para alguém ou ter que brigar por coisas fúteis, como quem vai dirigir...
     Cheguei na capital eram três horas da tarde, mas o céu estava nublado. Não choveria, mas também não seria uma explosão de calor. Só então me dei conta de que havia dirigido quatro horas sem parar. Da minha cidade no interior do estado até a capital no litoral eu não percebera o tempo passar. Nem planejara estar ali, mas a estrada havia me levado àquela grande cidade.
     Através da janela do meu carro eu via os grandes prédios que me lembravam a grandiosidade daquela cidade. De um lado os arranha céus e de outro o oceano. Quieto, calmo, como se estivesse me esperando para um mergulho. Sempre adorei o mar e naquela tarde, ele estava particularmente convidativo. Mas não estava azul, como de costume e, sim, cinzento e possivelmente gelado.
     Procurei hotéis por toda a orla, mas todos estavam lotados. Percebi uma grande movimentação na cidade. Alguma coisa estava acontecendo. Ao tentar um último hotel um pouco mais longe da praia descobri o real motivo da lotação dos hotéis. Haveria um show de Paul McCartney em dois dias e haviam fans de todas as partes do país. Eu também era fan do Paul, mas não estava em clima de show. Só queria me isolar e pensar na vida, tomar alguns goles de alguma bebida forte e chorar pela minha mudança.
     - Acho que você poderá encontrar vaga no hotel Blue Sea, fica em Boa Viajem, de frente para o mar. Ele é caro, mas acho que só haverá quartos lá, pois os fans já gastaram muito com os ingressos, não vão pagar hotel caro. - disse-me a funcionária de um dos hotéis lotados.
     "Bem, acho que mereço uma hospedagem de luxo depois de tudo o que aconteceu.", pensei.
     Cheguei no Blue Sea e lá realmente havia vagas. Pedi um quarto de frente para o mar, o que me custou uma fortuna, e subi para deixar minha bagagem. Não sabia quanto tempo ficaria por lá, mas esperava que os fans de McCartney fossem embora assim que acabasse o show, para que eu pudesse ir para um hotel mais barato.  
     Ali mesmo, no hotel fui para o bar encher a cara. Havia "muito sangue no meu álcool", eu precisava me desequilibrar um pouco.Estive equilibrada demais nestes seis anos. Ainda não havia escurecido quando deixei o hotel e saí cambaleando em direção à praia. Acho que, depois disso, fiquei muito bêbada, só fui me lembrar dos acontecimentos dias depois. 
      Chegando na praia me sentei em um quiosque e pedi mais cervejas e wisky. Uma boa caipirinha completou a minha mistura, que estava apenas começando. O mar estava silencioso, mas a praia não. Parece que os fans de Paul McCartney estavam se bronzeando numa praia cinza porque o calçadão estava lotado. Observei um grupo de amigos que estavam jogando poker ou alguma coisa com cartas, não me lembro muito bem. Eram cinco, mas um deles havia se afastado do grupo e sentado em uma outra mesa, aparentemente brigando com o celular. Talvez sua namorada estivesse na linha.
     Completamente bêbada e sem saber o que estava fazendo, me levantei e fui na direção do carinha. Loiro, alto e em boa forma. Talvez eu devesse seguir a vida e fazer sexo loucamente com alguém.
     - Com licença, posso me sentar aqui? - perguntei tropeçando na voz.
    Ele me olhou um pouco assustado, mas ao verificar que eu era só uma bêbada inofensiva, respondeu com um sorriso e um sotaque gringo.
     - Sim. 
     Se eu estivesse sóbria, certamente eu cairia para trás, mas nem percebi quem estava bem na minha frente. 
     - Percebi que você está muito sozinho, honey - disse eu em inglês, já percebendo que ele não era brasileiro. Me surpreende como mesmo bêbada, meu inglês era muito bom. - Então, vim alegrar o seu dia. Vamos, você não precisa ficar jogando poker se não quiser.
     Ele ainda parecia um pouco assustado, mas me deu um outro sorriso e pude ver o quanto seus olhos eram azuis. Percebi que sua presença naquela praia havia sugado o azul da água do mar para os seus olhos.

Ele:

     Loira, bem atraente, seios fartos, bunda grande. Foi a primeira coisa que eu percebi quando ela se aproximou. Claro, seu sorriso abobalhado indicava que ela estava bêbada, mas ainda de pé. Achei estranho logo no início. Geralmente as pessoas se aproximam de mim para pedir autógrafos e não para dividir uma mesa.
     Os brasileiros são estranhos. Talvez ela estivesse bêbada demais para me reconhecer ou realmente nem soubesse quem eu sou. Não deu indícios de ser uma fan, parecia ser apenas uma bêbada querendo puxar papo. Achei legal e entrei na dela. O jogo de Poker estava chato mesmo. AJ havia ganhado quatro partidas seguidas e eu estava ficando quase sem dinheiro.
     - Nick. – Me apresentei.
     - Alice. – disse-me com um sorriso bobo. Eu devo confessar que, mesmo alterada pelo álcool, o inglês dela era bom. – Mas hoje você pode me chamar do que você quiser. Não me importo mais.
     Eu ri da situação, mas não estava compreendendo muita coisa do que ela estava falando. Gostei da sua companhia e só.
     - Sabe, você é bonitão. Eu estou hospedada naquele hotel ali – Alice apontou para o Blue Sea, curiosamente, o hotel em que nós, os Backstreet boys estávamos hospedados. – Se quiser, tenho uma suíte enorme e uma cama bem vazia neste exato momento.
     - Está me assediando? – perguntei.
     - Claro que estou. – respondeu ela de forma divertida. – Não é todo o dia que eu acabo um relacionamento de seis anos e encontro um cara gostoso como você para me fazer companhia.
     Sinceramente, eu não sabia se ria da situação ou se fugia. Ela estava mesmo bêbada, seu bafo de cana chegava longe, mas, ao mesmo tempo, eu queria ver onde aquela situação iria parar.
     - Ok, você venceu. Vou ficar aqui na praia mesmo com você. Não quero te deixar sozinho, pensa que não reparei que você estava perdendo o jogo? O barbudão está levando todas.
     É, ela parecia não nos reconhecer mesmo. AJ agora era “O Barbudão”...
     - Então, de onde você é mesmo?
     - Jamestown, USA. Mas vivi um bom tempo na Flórida. – respondi.
     - É, você me parece o tipo de cara que gosta de praia.
     - Gosto sim. Estou com meus amigos aqui em uma semana de “férias”. Só temos alguns compromissos, mas nada muito complicado. – Evitei falar das entrevistas que iríamos dar, não queria que ela soubesse quem eu era. Sempre fui desconfiado com as atitudes de quem se aproximava de mim. Quase sempre era pela fama e o dinheiro.
     - E a sua namorada deixa você sozinho em uma praia com uma loira gostosa como eu? – Não pude deixar de rir dessa frase dela. Convencida e bêbada... o que mais ela teria de interessante?
     - Na verdade, ela está trabalhando em Los Angeles, não pôde vir. – senti um olhar de decepção ao me ouvir falar da minha namorada.
     - Então é por isso que você não quer ir para o meu quarto no hotel. – ela concluiu.
     - Exatamente. – eu disse com um gesto afirmativo na cabeça.
     - Ok, então vamos ser amigos. Eu sou gostosa, mas sou muito mais divertida.
     Rimos alto. Era impressionante como o sorriso dela era bonito. Meigo e bobo, meio exagerado no tom, talvez por causa da bebida.
     - Ouvi você dizer que terminou um relacionamento? – perguntei com cautela.
     Ela abaixou os olhos e, por um instante, vi uma sombra de tristeza perpassar o seu rosto.
     - Sinto muito. Eu não queria me intrometer. – falei sem jeito.
     - Mas já se intrometeu. – disse com um pouco de grosseria e voltou a ficar triste. – Enfim, não precisa sentir muito, ele não valia grande coisa e fui eu que terminei tudo.
     Ainda assim fiquei sem graça e permaneci quieto. Ficamos uns minutos em silêncio até que ela me puxou pelo braço em direção à praia. Caminhamos um pouco tontos e a minha pele se arrepiou quando senti os meus pés tocarem a água do mar. Talvez Alice não sentisse o quanto a água estava fria devido ao álcool, mas eu não havia bebido muito, podia sentir perfeitamente o frio que estava fazendo. Para a minha sorte, ela desistiu de jogar-se na água e molhou apenas os pés. Brincamos um pouco de chutar água um no outro até que ouvi o Howie me chamando da areia.
     - Nick, estamos indo pro hotel, vamos jantar e logo estaremos na boate no centro da cidade. Qualquer coisa, liga pra gente, ok? O Kevin vai ficar no hotel com a Chris.
     - Tudo bem. Vou ficar aqui com essa louca mesmo. – gritei. Por sorte, ela não ouviu.
     Howie sorriu e saiu em direção aos outros rapazes. Já estava quase escuro. Com um pouco de dificuldade, levei Alice de volta ao quiosque e combinamos de sair para jantar em algum lugar. Depois de mais alguns goles de Wisky, saímos para um restaurante chinês ali perto. Descobri que Alice adora comida chinesa, mas odeia a China.
     - Os chineses são todos iguais. Acho que se eu estivesse lá, confundiria todas as pessoas.
     - Já estive lá e posso dizer que eles são diferentes sim. Depois que você se acostuma, consegue distingui-los.
     - Vamos para a China, então. Aí você me mostra.
     - Agora? – perguntei brincando.
     - Não, seu idiota, um dia se a gente voltar a se ver. Gostei de você, daria um ótimo amigo de festas. – disse isso me abraçando. Estávamos saindo do restaurante e nessa hora, um fotógrafo clicou nosso abraço de bêbados. Pensei rapidamente na repercussão que essa foto teria no dia seguinte, mas decidi não me preocupar. A Lauren, minha namorada estava longe e certamente não leria as revistas brasileiras. E, além do mais, Alice era só uma moça, que provavelmente eu não veria mais.
     Ainda tentando fugir do fotógrafo, chamei um taxi que passava no momento e entramos.
     - Para onde vamos? – perguntou Alice. – Você não está me sequestrando, está?
     O taxista olhou para trás com cara de intimidador.
     - Claro que não, querida. – disfarcei – estamos indo pro centro da cidade, está havendo uma festa lá.
     Não estávamos vestidos para uma festa, mas ainda assim conseguimos entrar no estabelecimento sem sermos barrados. Era uma festa de comemoração dos 20 anos dos Backstreet boys, uma das tantas festas realizadas pelo mundo. Realmente me impressiona o fato de que Alice ainda não havia percebido quem eu sou.
     AJ estava próximo à porta com Rochelle e logo veio me cumprimentar.
     - Oi Barbudão do Poker. – disse Alice.
     AJ sorriu e eu o puxei para um canto.
     - Ela ainda está bêbada. – falei animado. – Mas é uma garota legal.
     Em uma questão de segundos, só o tempo em que eu falara com o AJ, Alice já estava com uma taça de Vodka a mão e dançava no meio da pista um pouco desengonçada, mas, ainda assim, sensual.
     - Nick, você arranja cada figura. – disse o Brian se aproximando. - Se a Leigh não estivesse aqui eu iria dançar com ela.
     De fato, ela dançava feito uma louca e muita gente no salão aplaudia. Sabe aqueles aplausos que a gente dá quando alguém está pagando mico? Enfim, na tentativa de diminuir a vergonha do momento, fui até a pista de dança e acompanhei-a em seus passos desconexos. Dançamos e bebemos a noite inteira. Dei também algumas entrevistas sem que ela percebesse e, pouco depois das 2h da manhã os Boys decidiram que iriam embora.
     Eu acabara de sair de uma entrevista e percebi que Alice estava deitada em um grande sofá no canto mais escuro do salão, adormecida. Finalmente o álcool a havia derrubado. Eu não gostaria de estar na pele dela no dia seguinte. Por sorte ela havia me dito em qual hotel estava hospedada. Fui até ela, a coloquei nos meus braços e acompanhei os boys em um dos carros da nossa produção de volta ao hotel.
     Ao chegar ao Blue Sea não foi difícil encontrar o quarto de Alice. O recepcionista me ajudou a encontrar o corredor onde ela estava hospedada e, com ela nos braços percorri o caminho. Abri a porta de seu quarto e entrei cuidadosamente para não bater em nada, pois ainda estava escuro.
     Era um quarto luxuoso. Maior do que o que os Backstreet boys estavam hospedados. Tinha uma varanda e uma mesa com velas. Coloquei-a na cama, tirei suas sandálias e a cobri com o lençol macio que estava sobre a cama. Liguei o abajur na mesinha ao lado da cama e, pela primeira vez pude reparar na beleza de seu rosto. Não seria problema nenhum ter vindo fazer sexo com ela quando ela me chamou. Se não fosse a Lauren. Mas acho que não teria sido a mesma coisa. Gostei da sua companhia. Era mesmo divertida, feliz apesar de ter sofrido recentemente.

     Conversamos muito e ela me contara que simplesmente fugiu da sua cidade em direção à capital. Disse que o destino queria que ela me conhecesse, mesmo que nunca mais nos víssemos. Observei seus cabelos pintados de loiro e o seu perfume atraente, os sinais da idade em seu rosto, suas mãos pequenas e unhas com tamanhos desiguais. Ela não era grande como a Lauren, mas sim, pequena e delicada, a pele branca bronzeada reluzia à luz amarelada da lâmpada e um ronco me despertou para que eu me retirasse do quarto. Sim, ela roncou. Não um ronco assustador, mas ainda assim, um ronco audível. Dei um sorriso debochando de seu roncar, acrescentei um beijo em sua testa e sai do quarto na ponta dos pés para não acordá-la.


Ela:

     ”Oh, meu Deus! Como eu vim parar aqui?”, pensei assim que abri os meus olhos na manhã seguinte.
     Eu estava deitada na cama do quarto do hotel em que me hospedara, mas não lembrava como havia chegado até ali. Minha cabeça girava e doía horrores, e eu simplesmente não conseguia me lembrar do que havia acontecido na noite passada. Lembrava de ter deixado o hotel já bêbada, mas como eu havia retornado? Não era possível que nunca tivesse saído do hotel, eu lembrava da água do mar batendo nos meus pés e sentia que estive muito feliz na noite anterior, mas como poderia ser assim?
     Eu acabara um relacionamento, bebera e simplesmente acordara no quarto do hotel sem saber o que havia feito horas antes! Olhei para o relógio, eram 11h da manhã e eu precisava de um remédio para a dor na minha cabeça.
     Me sentei na cama, pude perceber que o meu braço esquerdo estava dormente. Isso só acontece quando eu bebo Vodka. Mas não me lembrava de ter bebido isso.
     - Oh, meu Deus, e se eu fiz alguma coisa muito errada ontem? E se eu for presa! – exclamei. Provavelmente o recepcionista do hotel saberia me explicar alguma coisa.
     Tomei um banho apressado, troquei minha roupa, aparentemente suja de cachaça e desci correndo para a entrada do hotel.
     Uma moça bem vestida estava na recepção e não tardei a perguntar-lhe:
     - Bom dia, você poderia me dizer como eu cheguei no hotel ontem à noite?
     - Como? – ela perguntou aparentemente sem compreender.
     - É o seguinte, eu bebi ontem à noite, saí do hotel, mas não me recordo de ter voltado para cá. Você não saberia me dizer como eu consegui encontrar o meu quarto?
     - Desculpe senhora, mas o recepcionista do turno da noite saiu já faz algum tempo, eu não tenho essas informações. Quem sabe à noite a senhora possa conversar com ele.
     Assenti com a cabeça e me dirigi para a rua. O sol estava forte e meus olhos arderam com a claridade fazendo com que minha cabeça faiscasse de dor.
     Poderia resolver isso mais tarde. Minha prioridade agora era encontrar uma farmácia para comprar um remédio. Caminhei apressadamente pelo calçadão da praia e logo estava com umas cápsulas de alguma coisa para dor de cabeça. Andava sem prestar atenção no caminho, mas uma coisa me chamou a atenção.
     Em uma banca de jornais, na primeira página de uma revista de fofoca havia uma fotografia que me intrigou a ponto de eu me aproximar para enxerga-la melhor. Era o cantor Nick Carter da boy band que eu simplesmente adorava ao lado de uma loira em um abraço bem ousado. Fiquei boquiaberta em saber que o Nick estava na cidade. Quem sabe eu poderia encontrar com ele por aí!
     Abri a revista e olhei a matéria que dizia que os Backstreet Boys haviam vindo ao Brasil divulgar seu novo álbum e que o Nick não perdera tempo em colocar chifres em sua namorada Lauren. Ele havia encontrado a tal loira na praia e a levado para uma festa depois de jantarem em um restaurante chinês. Tadinha da Lauren!
     O senhor da banca de revistas aproximou-se de mim e, por trás, apontando para a foto, exclamou:
     - É você! – disse com uma expressão de assombro.
     Fiquei sem entender direito o que ele queria dizer até que olhei atentamente para a loira que estava ao lado do Nick.
     Ela tinha mais ou menos o meu tipo, roupas bem parecidas com as que eu usara ontem, e tinha uma garrafa de alguma bebida a tiracolo. Meu Deus, observei espantada, ela é igual a mim!
     Mas ainda era difícil acreditar que eu tivesse estado ao lado do Nick Carter na noite anterior. E eu não me lembrava de Nada, nada! Não, com certeza não era eu. Provavelmente eu havia voltado sozinha para o hotel e adormecera. Eu não estivera com o Nick, seria sorte demais e praticamente impossível. Aquela era só uma garota muito parecida comigo e com os mesmos gostos de moda. Sortuda!
     Ainda em pânico, comprei a revista e caminhei de volta ao hotel e me tranquei no quarto. O que aquela foto significava? Por que eu não conseguia lembrar de absolutamente nada? Havia algo de muito estranho nisso tudo.
     Estava batendo a minha testa na parede buscando ativar minha memória quando alguém bateu na porta do meu quarto. Ainda nervosa me apressei a abrir.
     - Bom dia Alice. Vim ver como você está.
     Paralisei. Ele era mais alto do que nas fotos ou na TV, mais gato e tinha os olhos mais azuis que eu já tinha visto. Não podia ser o Nick, não mesmo. Apesar de falar inglês e possuir uma voz que eu conhecia melhor do que ninguém, não podia ser ele. Ali, no meu quarto, perguntando como eu estava.
     Permaneci alguns segundos em silêncio tentando compreender o que estava acontecendo e perguntei:
     - Quem é você e por que quer saber se estou bem?
     Ele deu uma risada alta e sexy.
     - Ontem à noite você havia desmaiado de sono por causa da bebida, eu trouxe alguns comprimidos, achei que sua cabeça iria me agradecer.
     Fosse quem fosse, ele sabia o que tinha acontecido na noite anterior.
     - Como eu voltei para casa? – perguntei.
     - Eu trouxe você, por sorte nós estamos hospedados no mesmo hotel.
     Corri em direção à revista enquanto ele entrava no quarto e fechava a porta. Joguei a revista nos braços dele.
     - É você nessa foto? – perguntei.
     - Sim, sou eu... e você ao meu lado. Você não lembra de nada? – senti certa frustração em seu rosto quando eu confirmei com a cabeça. – Não dê ouvidos a eles, não estou traindo a Lauren, apenas nos divertimos ontem.
    Arregalei os olhos:
     - A gente fez sexo?
     - Não. – ele sorriu – apenas saímos para beber e curar suas dores do coração provocadas pelo seu ex. Mas você realmente exagerou na dose e acabou capotando de sono.
     Fiz uma cara de alívio quando ele falou que não tínhamos feito sexo. A verdade é que eu adoraria que ele tivesse dito que sim. Mas escondi o meu desapontamento.

Ele:

     Era impressionante que ela não conseguisse se lembrar de nada. Aquela havia sido uma das noites mais felizes da minha vida. Longe das drogas e da irresponsabilidade adolescente, eu podia sentir e aproveitar muito mais o momento. E curti cada palavra, cada passo que demos na noite anterior.
     Queria que ela também lembrasse. Também sentisse, como eu sentia. Mas talvez fosse melhor assim, ela é o tipo perigoso de garota que consegue me conquistar com facilidade. Ousada, verdadeira, gata. O problema é que eu imaginava quais outras qualidades ela possuía e estava louco para conhece-las.
     - Nick Carter. – me apresentei estendendo a mão novamente.
     - Alice – respondeu ela um pouco assustada.
     Alice estava realmente perturbada, imagino como deve ser você sair com um cara e não se lembrar dele. Ainda mais um cara famoso.
     - Nick Carter, não. Não pode ser. Você não é um Backstreet boy. – ela resmungou baixinho.
     - Sou sim. – enfrentei sua negação. Já havia visto centenas de fãs negarem a minha presença ao seu lado, como se fosse difícil acreditar.
     - Mas os Backstreet Boys estão viajando pelo mundo para divulgar seu novo álbum, In a World like this.
     - Parece que você conhece um pouco sobre nós. Não esqueça que o seu país faz parte dessa “viajem pelo mundo”.
     Ela deitou-se na cama de bruços e eu me lembrei da noite passada, enquanto a cobria com o lençol e admirava seu rosto. Ainda estava belo, mas um pouco inchado, como o rosto de quem não dorme à dias.
     Se eu pudesse fazê-la lembrar....
      - Estaremos fazendo uma viajem para Fernando de Noronha em um barco com alguns jornalistas, amigos e fãs... se você quiser, pode vir conosco. Eu adoraria a sua companhia.
     Ela permaneceu em silêncio.
     - O barco sai às 15h à sudeste da praia, onde fica o porto. – ela ergueu-se e falou com mais calma.
      - Obrigada pelos remédios, eu realmente vou precisar. Desculpe-me por não conseguir me lembrar de nada, vou descansar um pouco e, se conseguir fôlego, acompanho vocês.
     Me deu um sorriso que fez meus pulmões ficarem sem ar e me retirei do quarto desejando que ela aparecesse para a viajem.
     Seria uma viajem de um dia e uma noite. Voltaríamos na manhã seguinte. Eu iria dar algumas entrevistas na ilha e haveria mais uma festa. Tinha medo de que ela não fosse, mas acreditava que ela apareceria.
     Eram quase três horas quando chegamos ao porto. Eu olhava para trás ansioso esperando que ela aparecesse. Ela, porém não apareceu. Um enorme barco chegou, tinha dois andares e estava cheio de jornalistas. Tivemos que embarcar e logo fui maquiado e vestido para dar as entrevistas. Tive medo de que quando eu retornasse para Recife, Alice tivesse ido embora.
     - Nick, eu preciso conversar com você. – Howie me procurou em um dos intervalos das entrevistas.
     Fez sinal para que eu o seguisse até a parte de trás do barco que estava mais vazia. Não demorou muito para eu perceber que Alice estava no barco, sentada, de costas para nós admirando a vista do oceano. Howie piscou os olhos para mim e me deu um sorriso sapeca.
      Não era difícil perceber como eu estava radiante agora. Meu humor mudou da água para o vinho e logo me aproximei de Alice, sussurrando em seu ouvido:
     - Está se escondendo?
     - Estou sim. – ela me respondeu – o barco está cheio de fotógrafos, não quero chamar a atenção. Por isso não falei com você antes. Sweet D. e sua esposa me ajudaram a entrar no barco. – Alice sorriu e eu pude perceber que sua aparência estava muito melhor do que pela manhã.
     - Eles não vão ficar na ilha, voltarão assim que aportarmos. Estou feliz que tenha vindo. O Howie fez bem em manter você em segredo. Os jornalistas gostam de inventar histórias.
     Não me impressionei com o fato de que o Howie estava me ajudando mais uma vez. Ele era realmente um grande amigo, depois de escrever o prefácio do meu livro nossa relação se estreitou ainda mais. Ele me compreendia, apesar de aguentar as minhas brincadeiras pueris.

     Contei-lhe sobre tudo que havia acontecido na noite anterior e ele tinha se divertido com as minhas histórias. Porém me pediu para tomar cuidado, pois não queria ver as pessoas magoadas por minha causa. Óbvio que ele falava da Lauren, mas eu lhe garanti que Alice era só uma pessoa legal. Alguém que valia a pena conhecer. Porém, intimamente eu sentia receio de confundir as coisas e acabar me apaixonando.

Continua...

SOBRE O FICK

     Quem nunca sonhou estar cara a cara com seu ídolo? Melhor ainda, viver uma história de amor, sexo ou uma amizade com ele. Enfim... guardo inúmeros sonhos de fan que decidi escrever neste blog. Falam um pouco sobre as fantasias que criamos em torno de celebridades e, da nossa vontade de realizá-las, mesmo sabendo o quanto é difícil atingir estes objetivos.
     Confesso que, mesmo achando bobas, as fantasias com os meus ídolos me divertem. Afinal, não é pecado sonhar, nem prejudica o outro.
     As histórias postadas aqui neste blog são FICTÍCIAS e não apresentam veracidade quanto aos personagens descritos. São só uma forma de usar a imaginação para podermos vivenciar os nossos sonhos. Se alguém tiver uma sugestão sobre uma história, entra em contato através do blog e eu ficarei imensamente feliz em publicá-la.
     Espero que se divirtam com as loucuras da minha imaginação e aproveitem para fazer parte deste sonho!

Mary C.